Sinopse do Espetáculo
Notas ao programa, por Os Músicos do Tejo
Estamos gratos a Bach pelos seus esforços. A sua persistência, que quase parece sobre-humana, é louvável e cada concerto que faremos, este em particular, é um ritual de valorização e exaltação deste esforço humano.
Deste esforço que, segundo o próprio, era de louvor a Deus e que, para nós, é também um trabalho, um exercício, de louvor à parte do ser humano que é magia e mistério, à parte do ser humano que é metafísica (sendo que a situação metafísica deve ser também uma metafísica da “física”, pois tudo o que é “real” e “objectivo” não é menos misterioso e espiritual) e que nos propulsa para as paisagens desconhecidas e surpreendentes. As paisagens do mundo mágico que não são a ilusão da tecnologia.
Não estamos gratos aos esforços de outros seres humanos.
Começámos por amar a sinfonia inicial da cantata “Christus lag in Todesbanden” como um pedaço de cinema.
Estamos gratos aos que inventaram o cinema pois vieram dar um nome ao movimento interior que já existia.
No cinema interior de Bach havia o castelo de Eisenach, o castelo da sua terra-natal. No castelo de Eisenach, cidade onde Bach nasceu em 1685, esteve escondido a trabalhar em grande esforço outro ser humano especial: Martinho Lutero.
Fugindo da crítica e perseguição das autoridades religiosas, aí se debruçou sobre a Bíblia sagrada (cerca de 100 anos antes do nascimento de Bach), mas interpretando-a de novo para a dar a conhecer numa nova linguagem. A linguagem do povo germânico.
Os trabalhos e esforços desse ser humano foram valorizados com tal importância por tantos seguidores que uma nova união se deu, nascida de um esforço de reformulação, refundação, de dar uma nova força às palavras. Uma secessão.
Nessa língua alemã da bíblia luterana (que era também uma nova língua alemã, esculpida com certos critérios estéticos, éticos e filosóficos por Lutero), abriase um novo campo musical.
Uma nova união que era necessário levar a cabo desde a raiz.
Muitos o fizeram, desde Scühtz a Buxtehude, e no gigantesco clã familiar Bach - a mais numerosa e talentosa família musical da história da humanidade - muitos também o fizeram (Johann Christoph Bach (1642-1703) com especial inspiração).
Mas seria com J.S. Bach que essa união sagrada entre música de superior profundidade e uma língua poética neo-religiosa se selou.
É isso que vemos em obra em toda a música religiosa com texto em alemão de Bach, em especial na cantata mencionada - provavelmente escrita com 22-23 anos, em 1707-1708, possivelmente como demonstração do seu talento para o posto de St. Blasius, a principal paróquia de Mühlhausen.
Toda a cantata se baseia na melodia coral homónima composta por Lutero (ao que tudo indica, inspirando-se no canto gregoriano “Victimae paschali laudes”).
É curioso que a refundação luterana teve na música uma componente primordial com Lutero a fazer também o papel de “meta-Papa Gregório I” ao compor e arranjar um corpus de cânticos religiosos que deveriam servir à celebração comunitária.
Esses cantos - chamados Corais Luteranos - foram a base de inúmeras obras de Bach.
Também ouvimos reminiscências dessas melodias na célebre “Jesus bleibet meine Freude”, por exemplo.
O resto do concerto complementa-se com uma cantata das mais profundas, “Widerstehe doch der sünde”- especialmente marcante pois Bach permite-se começar com um acorde dissonante, quebrando uma regra quase inviolável em toda a música do seu tempo – assim como uma das obras mais festivas compostas por Bach para instrumentos.
Os Músicos do Tejo
Johann Sebastian Bach (1685-1750)
Cantata Christ lag in Todesbanden, BWV 4
Sinfonia
Versus 1. Christ lag in Todes Banden. Allegro
Versus 2. Den Tod niemand zwingen kunnt
Versus 3. Jesus Christus, Gottes Sohn
Versus 4. Es war ein wunderlicher Krieg
Versus 5. Hier ist das rechte Osterlamm
Versus 6. So feiern wir das hohe Fest
Versus 7. Wir essen und leben wohl
Ária de Soprano extraída da Cantata BWV 202 - Weichet nur, betrübte Schatten
Suite Orquestral Nº 3 em Ré Maior, BWV 1068
1. Ouverture
2. Air
3. Gavotte I
4. Gavotte II
5. Bourrée
6. Gigue
Ária de Baixo extraída da Cantata BWV 82 - Ich habe genug
Intérpretes:
Johanna Falkinger - soprano
Arthur Filemon - contratenor
Marco Alves dos Santos - tenor
Hugo Oliveira - baixo
Violinos: Nuno Mendes, Álvaro Pinto, Denys Stetsenko, Sara Llano
Viola: Paul Wakabayashi, Pedro Braga Falcão
Violoncelo: Hugo Paiva
Contrabaixo: Vladimir Kouznetsov
Oboé: Pedro Castro
Cravo: Marta Araújo
Órgão e Direção Musical: Marcos Magalhães