Sinopse do Espetáculo
YHWH Nailgun
Quase 50 anos passados e com toda uma história fractal de mutações a partir das vontades do punk, as impressões sacadas à cartilha post desse espírito encontram, ainda hoje, pertinência e assunto fora da câmara de eco do tribalismo polirrítmico, do minimalismo funk e da dissonância. Mesmo que minimalismo, polirritmia e dissonância sejam três vectores fulcrais nesta música, este quarteto nova-iorquino evolui muito para além da mera mimese da ginga e/ou psicose de Liquid Liquid ou This Heat para um estado anímico-físico que, reconhecendo as revoluções até aqui - de US Maple a Liars ou Battles - não é senão mesmo do Agora. Suspensas numa instrumentação, pouco surpreendente à partida, de bateria, guitarra e sintetizador as breves canções de YHWH Nailgun tomam o pulso rítmico imaginativo de Sam Pickard como força vital para abancar espasmos de guitarra, texturas vítreas de sintetizador, pulsões de graves e a voz com grão, como quem exalta a revolta do cansaço, de Zack Borzone. Após um par de EPs na Local Ramp e todo um burburinho crescente que daí surgiu - alimentado por actuações catártico-físicas - lançaram na AD93 o seu álbum de estreia e aí assentam mesmo bem ao lado de Moin. Apesar das óbvias diferenças, existe em campo de trabalho comum, que sublimando o ritmo, ignição para movimentos polirrítmicos entre a dança e a queda, finta princípios base do rock e do punk numa matéria descarnada, reduzida ao essencial, e que vai encontrando forma de revolver elementos familiares em algo novo e cativante. Nada mau.
BS
OkA
Os OkA são um trio de noise punk sediado em Lisboa, formado por João Moreira na guitarra e voz, Alexandre Bandola na bateria e voz, e João Mendes. A banda formou-se em 2023 a partir de uma necessidade partilhada e ligeiramente obsessiva de criar algo que pudesse existir sem um lugar fixo ou uma função clara. Não estão interessados em encaixar-se. A sua música vive na tensão, na contradição e no excesso, como uma bolha encharcada, cheia de tudo e de nada ao mesmo tempo.
Influenciados pela energia crua dos Melt-Banana, pela imprevisibilidade lúdica dos Deerhoof e pela liberdade radical dos Naked City, movem-se entre o humor e a ruptura com um raro sentido de equilíbrio. As suas referências estendem-se para além da música, abrangendo a arte e a performance, ecoando o espírito de Marcel Duchamp, Andy Warhol e Jack Smith, onde a ironia, o instinto e a provocação coexistem sem explicação.
O seu EP de estreia, "ombu", foi autoproduzido pela banda e misturado e masterizado por João Galvão. É um lançamento conciso e volátil que nos convida a dançar com o ruído, a pensar através da distorção e a gritar sem restrições. Por baixo do volume e da abrasão há intenção, e por baixo do caos há um forte sentido de brincadeira.
No palco, os OkA revelam-se plenamente. O trio apresenta um espetáculo ao vivo intenso e físico que muitas vezes lembra a força explosiva dos Lightning Bolt, mas com uma energia mais leve e aberta. Bateria, guitarra e voz fundem-se num único corpo sonoro em movimento. As vozes tornam-se ritmo, a distorção torna-se movimento, e a sala passa rapidamente da incerteza para a atenção total. O público pode chegar curioso, mas raramente sai indiferente.
Os OkA começaram recentemente a apresentar "ombu" ao vivo e estão a construir progressivamente a sua presença através de concertos. Está previsto um novo álbum completo para 2027. No fundo, podem ainda parecer três pessoas a fazer barulho numa sala de ensaios. Na realidade, estão a moldar algo alto, sincero e impossível de ignorar.
PREÇOS
Entrada | 15€